06/11/2004

Quinze minutos para o embarque. Pessoas vão se acumulando em torno de uma porta de vidro, algumas olham a passagem conferindo o portão, outras acendem o derradeiro cigarro e tragam-no rápido, como tentando absorver o máximo de nicotina possível para agüentar as horas sem fumar. Um criança abrem o saquinho de Cheetos (tem que ser esse, o mais “fedorento” dos salgadinhos...), e você pensa: “tomara que não sente próximo a mim” (mas isso é sempre uma ilusão: a criança é sua vizinha de poltrona, e viajará no colo da mãe...). Abre-se a porta de vidro e todos resolvem passar por ela ao mesmo tempo. Pé ante pé, você consegue despachar a bagagem, e enfia o ticket em qualquer lugar (não importa qual, pois na hora de retirar a mala sempre irá pensar que o perdeu, batendo em todos os bolsos da roupa e revirando a bolsa...). Passagem na mão, você percebe que não a preencheu, e fica atrás de uma caneta (tem sempre alguém fazendo o mesmo). Entra no ônibus, confere o lugar e tenta colocar a mochila no porta-bagagens-de-mão (geralmente ela não cabe, e aí você tem que socá-la). Senta na sua poltrona, cuidadosamente escolhida – do lado oposto ao motorista, na janela, no meio do ônibus – como se ali, e somente ali, você estivesse a salvo de qualquer perigo. Respira fundo, para desfrutar dos átomos de ar ainda não viciados, sente calor, tenta abrir a janela, ela não abre – o ônibus tem ar condicionado. Chegam a mãe e a criança, a mulher ajeita uma sacola embaixo da poltrona, e a criança continua comendo seu salgadinho com “cheiro de chulé”. Você lembra que esqueceu de comprar uma garrafa de água (“moço, rapidinho, só vou pegar uma água...”). Motor ligado, você faz uma acrobacia para ocupar novamente o seu lugar, puxa um walkman da bolsa, folheia a revista adquirida na banca da rodoviária, tenta ler, pega um chiclete, fecha os olhos, abre a cortina, respira fundo de novo, cruza as pernas, descruza as pernas, se espreme num cantinho (a dupla ao lado já está ocupando uma poltrona e meia). Não vê a hora da parada, que nunca chega, e quando chega você sai como um foguete, vai direto ao banheiro, depois ao café (acompanhado de um pão de queijo), e aproveita para olhar as revistas e jornais para passar o tempo. Fila para pagar, você quase enfarta ao ver o valor de sua conta (“mas eu só tomei um café!...”). Entra no ônibus (que está abafado), pega outro chiclete, dá uma repassada na revista, tenta ler e não consegue; alguém conversa animadamente, a pilha do walkman acaba, o tempo não passa, a paciência vai se esgotando (nessa hora a criança está em pé no banco, falando com alguém do banco de trás, pulando, indo 500 vezes no banheiro...). Você sente no ar um cheiro de fumaça de cigarro, levanta um pouco da poltrona e dá “aquela” olhada fulminante pra trás, suspira alto, resmunga alguma coisa sobre a lei, se aquieta, conta até 100, (já vai chegar, calma...), abre a bolsa, passa uma escova no cabelo, o ônibus encosta, as pessoas já formaram uma fila no corredor (esqueça, você sairá por último). Pega sua bagagem de mão, faz aquela célebre cena de procurar o ticket da sua mala, também ela será a última e ser retirada do bagageiro. Sai arrastando tudo e pensando que tão cedo não incorrerá nesse erro (mas se esquece que ainda tem a volta...).

3 comentários:

sub disse...

Hehehe, é assim mesmo, ainda bem que não precisava viajar de noite!

Lili disse...

Specie: De noite é ooooutra história, ainda pior. Principalmente quando sentamos na última poltrona e alguém resolve ter um desarranjo intestinal (rsrs)!

Fernando disse...

Oi, Lili,
Quase normal a estória. Anormalmente normal!
Tenho dado sorte, pois os onibus que tenho utilizado, ultimamente,tem trafegado menos cheios.
Mas, parecido com a sua descrição, já tive passagens quase iguais.
Dose!!!
Beijos
Fernando Cals