03/06/2005

Na boca do lixo eu passei para cortar caminho, como se não soubesse que o caminho mais curto é também o mais penoso. Na boca do lixo eu passei para ver se estava tudo igual: as prostitutas e os aviões, o comércio decadente e o movimento dos simples mortais que somos nós. Na boca do lixo eu vi, numa fração de segundos, muitas histórias de vida: um jovem estendido na calçada, com os braços por dentro da camiseta, a mulher que passava ao lado olhando para o nada, tentando preservar sua dignidade de transeunte, a moça rosa de rabo loiro, fumando e aguardando sua sorte na frente da sapataria, o burburinho na saída de um cursinho na hora do intervalo, o cheiro ensebado das lanchonetes, o trânsito silencioso e civilizado nas ruas estreitas. Na boca do lixo eu percebi um sorriso sem maquiagem, humanizado, heterogêneo, solidário, vindo de corações moídos e recompostos em rasgos de esperança. A boca do lixo é sincera, fala o que pensa, não esconde os sentimentos, joga verdades na nossa cara. A boca do lixo é banguela, como disse Caetano sobre o que disse Lèvi-Strauss sobre a Baía de Guanabara. E, acima de tudo, é uma boca sedutora.

01/06/2005

Eduardo esteve num congresso no México, voltou domingo. Enquanto isso carregamos a Simone, que deixou o Tobias com a Léa. Fomos no show de lançamento do CD do OAEOZ, depois no bar do Zé, cheio desse vez. Amanhã vamos na casa deles, ela fará um jantar mexicano usando os livros de receita que ele trouxe de lá.