25/02/2006
Sempre acho interessante quando os escritores dão entrevistas sobre o lançamento de seus livros. Um momento que parece o ápice, a consagração de um esforço de, às vezes, muitos anos, está misturado a sensações das mais estranhas. Os autores sentem orgulho e solidão, num ritual de festejada despedida. Despedida dos seus personagens, que o acompanharam e “tomaram frente”, vida própria, a ponto de o autor acordar, no meio da noite, assustado pelo rumo que este ou aquele resolveu tomar no meio de uma história. Morin descreveu esse processo, denominando-o de “ecologia das obras”, em que o escritor já não é o único autor de seu livro: desde o início da produção, a obra também se torna autora de si mesma. Despedida de sua rotina, que se perpetuou por dias, meses, anos, que se instalou nos seus hábitos, nos seus pensamentos, no seu olhar para o mundo, que se traduziu em muitas conversas consigo mesmo, em sua “mente povoada”. Despedida da desculpa de ter um compromisso inadiável; simplesmente a desculpa que o permitia a decidir o que queria fazer, como, quando, onde e com quem. Por tudo isso, há uma saudade (a “dor doce”), um rompimento, uma mudança de perspectiva, até que outra idéia venha a ser fecundada, e que se auto-produza no “ventre” do escritor. Há o sentimento de finalização, concretização e coroamento, no lançamento de um livro, seguido pelo reconhecimento público da obra, que vai determinar (ou não) a sua “sobrevida”. Sentimentos confusos, conflitantes e estranhos, que só um escritor pode experimentar. Não, talvez a maternidade possa deflagrar algo parecido...
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