04/12/2004

Essa foi boa...
Devo mesmo ter sido contaminada pelo espírito de Natal.
Ia fazer uma pergunta para minha mãe, exatamente no momento em que passava um carro de som com música natalina no último volume. Ao invés de dizer "Mãe, o papai ligou?" eu disse "Mãe, o papai noel, ...é, hum, o papai ligou?" ha ha ha ha
O que seria isso? Ato falho?!
Bom dia, dia! Que prazer encontrá-lo, céu azul! Sol, conte-me de suas paragens... que fazes por estas plagas?!

Agora todo ano é assim: faz frio em dezembro. No Natal, quando queremos colocar uma roupinha mais fluida, uma saia curta, um blusa nova de alcinha, uma sandália... simplesmente não dá.

Isso me lembra uma coisa engraçada: nos anos oitenta se usou muito "meia fina". No inverno e no verão. Saia com meia fina, bermuda com meia fina (e uma época ela era colorida!). A preferida era a "meia fina" preta, usada com scarpin, sapatilha ou botinha... hoje acho isso um horror, meia fina só para grandes produções, mas... moda é moda, e tudo acaba voltando. É só aguardar.
Recebi uma carta da CAPES acusando o recebimento da solicitação da bolsa sanduíche. Quando estava em busca de um lugar no mundo para complementar minha tese, pensei não só na qualidade dos centros de pesquisa e das pessoas; tinha que haver uma identificação com o lugar. Tinha também a questão da língua, já que se exige diploma do idioma oficial do país. Tinha a questão da tutoria, ou seja, eu precisava ter contato com uma pessoa do país que iria me receber. Meu programa de doutorado tem convênio com universidades da França (Bordeaux e Paris VII). Mas não aprendi francês, nem a França estava nos meus planos. Pensei em Inglaterra e logo desisti. Estados Unidos, nem cogitei. Pensei em Espanha, estava quase tudo certo quando mudei de idéia. E, sob protestos, escolhi o México, país que sempre me despertou curiosidade. O México é um país colorido. Pobre, cheio de problemas, mas alegre, criativo, berço de culturas, lindas paisagens.

E eu, que tinha até esquecido que estou nessa espera...

03/12/2004

- Posso ver? Noooossa, ficou linda!
- Ficou grande...
- Claro que não! É pra ser assim mesmo... é o modelo dela... ah, ficou show!
- Ta muito caída, não ficou legal.
- Ah, mas é só dar um pontinho aqui ó...
- É, mas aí estraga todo o caimento dela...
- Nãão! Nossa costureira é muito boa! Ela arruma superbem..., peraí, vou pegar os alfinetes pra marcar.
- Mas eu não resolvi que vou ficar com ela...
- Aaaah, acho que você devia levar... ficou linda, você não vai achar nada que dê tão certo com essa saia.
(Vem a gerente):
- Uau, maravilhosa!!!
- Mas ficou enorme...
- Ah, isso a gente dá um jeito. É só dar um pontinho aqui ó...

Vendedores querendo empurrar um produto: isso me irrita profundamente. Gosto de lojas como a Zara; a gente pega a roupa, prova, resolve se leva ou deixa ali mesmo e pronto.

02/12/2004

Estava aqui pensando com “meu botão”. Já estou a bastante tempo nesse ritmo de blog, escrevendo todos os dias, tentando melhorar o “template” (tentei fazer os links permanentes mas não consegui, saiu no lugar errado; tentei colocar figuras, mas o programa recusou meu e-mail). Fiz “amigos virtuais” (poucos, e bons). Estou estimulada a escrever, exercito a criatividade, escrevo coisas que estão guardadas no fundo da memória... Posso dizer que passei pela fase 2, onde tentei decifrar os códigos desse fenômeno da contemporaneidade. Agora virou hábito, é irreversível, já nem penso mais em por que tenho um blog!

Bom, mas já que voltei ao assunto, aí vão mais algumas percepções sobre a vida própria dos blogs.
- Alguns são salas de visitas; outros são “quartos” de visitas; outros, ainda, são “banheiros”.
- Uns são consultórios de análise; outros são o próprio paciente no divã;
- Uns são baús de quinquilharias; outros, álbuns de fotografias.
- Alguns são editoriais; outros são segundo caderno, e outros a página de esportes.
- Uns são dissertações; outros, relatórios.
- Uns são “meu querido diário”; outros são “meu livro de poesia”; e outros “minhas receitas”.
- Alguns são portfólios; outros, currículos.
- Uns são mesas de botequim; outros são mesas redondas.
- Alguns são festas de arromba; outros, jantarzinho íntimo.
- Uns são pontos de encontro, outros são retiros espirituais.
- Uns são escancarados; outros, mais reservados.
- Alguns são simpáticos, e outros, mal humorados.
- Uns são engraçados; outros, nem tanto.
- Alguns são populares; outros, outsiders.
Alguns são puro escárnio. Esses têm muito ibope.

01/12/2004

Recebi uma mala direta do Papai Noel. É, do Papai Noel, está lá no remetente: “Papai Noel. Rua da Lapônia, 25 – Pólo Norte”. Envelope vermelho, selo de renas, carimbo do Pólo Norte. Ai, fiquei emocionada! A carta começa assim: “Para Lilian
Saudações natalinas.
Ora, ora. Aposto que é a primeira vez que você recebe uma carta minha. Este ano preparei várias surpresas, e todas estarão no Shopping Curitiba esperando você.”
A carta continua, falando da decoração e de todas as promoções e vantagens de se afundar lá nas compras de Natal.

Ora, ora, diria eu para o Papai Noel. O senhor não é aquele que me visitava no dia 24 de dezembro, trazendo muitos presentes? Ou que deixava um saco de presentes na sala sem que ninguém o visse (e ouvisse)? Aquele que tocava um sininho que me fazia sentir um nó na garganta? Que chegava cansado, e sentava no sofá, falando pausadamente, sobre todas as casas que ainda tinha que visitar? Que todos os adultos enxergavam voando no céu, com seu trenó, menos eu? Que tinha barbas de algodão? E luvas de meia? Às vezes chegava meio capenga? Fazia todos os adultos darem risada?
Diria isso ao Papai Noel, ao MEU Papai Noel, que povoou meus sonhos durante os primeiros anos da infância, para quem eu entoava canções emotivas, para quem eu me preparava ansiosamente na véspera de Natal, que adivinhava o que eu queria ganhar, mesmo sem precisar mandar cartinha para o Pólo Norte, meu Papai Noel de encantos, de cheiros, de visitas, de alegria, de reunião, de música, de quitutes, de abraços. Minha Noite Feliz, minha família, meus primos, meus avós... minha doce infância, mundo para onde mergulho, placidamente inebriada... embalada pelo colo aconchegante do Papai Noel. Do MEU Papai Noel...

Quanto à carta, grande jogada de marketing.

30/11/2004

Continuando minha exegese vociferante sobre a vida do pesquisador brasileiro, e já “comentando o comentário” do Fernando: não podemos contar com as condições mínimas para ser pesquisador no Brasil sem ter que fazer grandes concessões. Exemplifico: os professores de universidades públicas, que também são orientadores e pesquisadores, não têm um salário não condizente, mas tem que ter dedicação exclusiva, ou seja, 40 horas semanais. O que acontece? O salário não dá. O que fazem, então? Dão aulas nos finais de semana em cursos de pós-graduação para complementar a renda. E inflaciona-se a oferta desses cursos, que acabam virando um subterfúgio para o problema da má remuneração. Está certo, há uma contrapartida boa (profissionais têm buscado e conseguido especializações nos seus ramos), mas muitos desses cursos não poderiam nem existir, tamanha a desorganização/ falta de seriedade e respeito com os professores e alunos. O resultado disso é fácil de imaginar.

Já aqueles que se preparam durante anos para a vida acadêmica e não conseguem sequer entrar numa universidade pública, ficam à mercê das faculdades dinheiristas que supostamente pagam bem, mas “esfolam” o professor, pois este não tem as condições de dedicar-se a pesquisa nenhuma. É pago por hora-aula. Mas trabalha bem além das horas em que está em sala de aula, por supuesto. Isso tudo tirando o fato de que, para chegar a qualquer universidade séria, hoje, é preciso ter o título de doutor. E não é nada fácil conquistar esse título tendo que, na maioria dos casos, trabalhar duro e estudar ao mesmo tempo, cuidar da casa e da família, etc. A não ser que este se dedique exclusivamente à pesquisa, submetendo-se à bolsa irrisória do governo, o que só é possível se houver um suporte financeiro familiar.

O resultado dessa condição: o alto investimento que o país faz na formação dos seus intelectuais e cientistas não tem o devido retorno, para dizer o mínimo. Veja-se a evasão desse pessoal para outros países.

29/11/2004

"To complete registration, you must verify your email address. Clicking the button below will send an email to you containing instructions on completing this process". Inacreditável. O tal Hello me barrou de novo, pela terceira vez. O pior é que não vem e-mail nenhum com as ditas instruções. Aaah, quer saber? Cansei...
Começo a semana pensando em tudo o que tenho que fazer. Termino a semana pensando em tudo o que não fiz. As coisas acumulam e, assim, começo novamente a semana pensando em tuuuudo o que tenho que fazer, e daí os dias parecem mais curtos... Bom, melhor mudar de estratégia.

Ontem consegui ir ao cinema para ver La Mala Educación. Almodóvar é sempre Almodóvar, assim como Woody Allen, Tarantino, David Lynch, só para citar alguns que têm um estilo inconfundível, que conservam elementos comuns em todos os seus filmes. Os elementos “almodovarianos” (as cores fortes, o cenário kitsch, os personagens bizarros) estão lá, mas esse último filme não me convenceu. Imaginei-o muito mais sutil, provocador e dramático. Numa história com muito potencial (e com referências explícitas aos “film noir”), ele acabou por fazê-la comum, tentando criar um clima de suspense que ficou previsível cedo demais. Os dramas psicológicos, que se desenhavam no início, quase não foram explorados. Dessa vez, ele deu mais importância ao encadeamento dos fatos. Seriam exigências do mercado cinematográfico, já que há tempos ele está no mainstream? Acabei relacionando seu desfecho aos filmes de Hollywood.

28/11/2004

Revelei as fotos da praia (finalmente), ficaram muito boas. Ontem à noite Simone e Eduardo nos convidaram para jantar, e daí fizemos a “sessão” de fotos (trocamos negativos e tal). O jantar estava maravilhoso, ela caprichou. Primeiro, uma salada incrementada com molho idem. Depois, um suflê de cogumelos frescos muito exótico, pelo sabor selvagem do cogumelo e pelos temperos que colocou, como salsinha, kümmel, noz moscada e pimenta moída na hora. A sobremesa, então, foi surpreendente! Maçãs recheadas e assadas, servidas com sorvete de creme. Tão bonita quanto deliciosa.

Eduardo está indo para Israel na terça, onde fará contatos que possibilitarão sua ida (com a família) para lá no ano que vem, fazer seu pós-doutorado. Eduardo é o exemplo típico do professor/ pesquisador desiludido com o país. Fez seu doutorado na Alemanha, para onde foi recém casado. Ficaram lá 5 anos, com bolsa. Viajaram a Europa inteira (e mais um pouco), foram a todos os shows, eventos e museus que puderam, compraram pilhas e pilhas de CDs, e ainda conseguiram economizar um bom dinheiro. Voltaram para o Brasil; ele ganhou uma bolsa de recém-doutor por dois anos. Com as economias (e ajuda do pai), construíram uma linda casa. Passou num concurso para uma universidade pública, tiveram um filho. E agora não conseguem mais economizar nada; trabalham como loucos, vivem no vermelho, não podem fazer uma viagenzinha sequer no fim de semana sem sair do orçamento, quase não vão a shows ou compram CDs, já tiveram a casa roubada, enfim, não conseguem, nem de longe, ter uma vida parecida com a que tinham na Alemanha. Agora que terminou seu estágio probatório, pode sair para o pós-doutorado. Como são doidinhos, “escolheram” Israel. Ele pode ficar até dois anos fora, e voltar para a universidade. Depois de algum tempo poderá sair de novo, e assim sucessivamente. Ontem falava no desejo de mudar de vez do Brasil. Desapegados, ficariam numa boa fora para sempre, acontece que seus pais vieram de Petrópolis para cá só por causa dele, que é filho único, construíram uma bela casa para ver o neto crescer, etc.

E esse é um exemplo do dilema daquele (brasileiro) que tem como vocação a pesquisa...