02/11/2004

Os ciclos

O Ano dá seus primeiros suspiros agonizantes neste dia de hoje. Ou seja: o ano termina, o ano acaba, o ano finaliza, o ano morre daqui a 2 meses. Essa morte anunciada nunca é percebida – sempre há um subterfúgio para que passemos ilesos para um novo ano, aquele em que irão renovar-se as esperanças, realizar-se os desejos, curar-se as feridas, etc.

Usamos todos os artifícios para fazer de conta que a morte não faz parte da vida. Hoje, por exemplo, é dia de Finados. Nunca falamos “dia dos mortos”, assim como dizemos que fulano “faleceu”, ao invés de “morreu”. Morte é uma palavra permeada por tabus. Procuramos afasta-la ao máximo de nosso pensamento, de nosso dia-a-dia. Cedemos aos apelos da propaganda, que vende a idéia de eterna juventude para que não sintamos nunca a proximidade da morte.

Sobre a morte paira a incerteza. Sabemos que ela encerra um ciclo, mas titubeamos ao vislumbrar uma continuidade. Sabemos que a morte é um evento natural, mas há muito nos afastamos da natureza...

Nossa civilização ocidental imprime à morte um peso maior do que deveria ter. Esquecemos de olhar a natureza, de perceber como as folhas se desprendem das árvores, de ver os cogumelos brotando na umidade dos troncos das árvores caídas, de ouvir os pássaros que chegam na primavera, com seu gorjear nos remetendo à infância (como se fossem os mesmos pássaros daquela época!)...

Não. Como senhores e possuidores da natureza, achamos que temos o poder de controla-la. Achamos que a morte é um percalço da vida, e não um evento natural. Vemos beleza no nascimento e na juventude. Não vemos beleza na velhice e na morte.

Quando percebo que um dia como o de hoje é “mais um feriado” no qual podemos viajar, passear ou não fazer nada, vejo o quanto estamos afastados do significado da morte. Também vejo o mesmo nas pessoas que, apenas no dia de hoje, choram seus mortos, lavam os túmulos e os enfeitam com flores.

Tudo isso me remete a uma conclusão: vivemos em função dos momentos vindouros. Não estamos dando a verdadeira dimensão ao presente, aos fatos, aos significados das coisas. Passamos o ano (anos após anos) esperando as datas chegarem: após Finados o que vem? As propagandas de Natal, as luzes, os presépios, os presentes, as comilanças, os encontros familiares. Depois? Ano Novo (vida nova ?), a festança, as férias, as viagens. Carnaval, depois o trabalho, o estudo, e o aguardo dos feriados (Páscoa, Tiradentes, dia do Trabalho, Corpus Christi). Depois as férias de Julho, os feriados de Setembro/ Outubro/ Novembro e novamente os preparativos para o Natal.

E assim, não temos tempo para pensar na morte. Vemo-la todos os dias no noticiário, no nosso jardim, eventualmente na nossa família e círculo de amizades. Mas não pensamos nela. Não falamos dela. Mas sofremos. E como sofremos...

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