07/03/2006
Anestesia, ou confusão mental. Andando pelos corredores cheios de livros, imaginava que iam-no devorar, enxergava-os com mãos querendo pegá-lo, e quanto mais andava rápido, maior era o cordão de letras enlouquecidas que se formava atrás dele. Os olhos passavam trêmulos pelos títulos, como se buscasse algo que nunca fora publicado. Mergulhado no delírio, deleitava-se pelo prazer de saber que sua busca era inútil, e que nada, ou ninguém, iria tirá-lo de sua intranqüilidade. Pessoas de blusas pretas interpelavam-no insistentemente, mas não ouvia suas vozes, apenas o movimento das mãos e dos lábios, e de seus passos discretos. Olhava incrédulo para as seções mais movimentadas, dos livros de auto-ajuda, das últimas revistas de fofoca, dos sushis e melancias, e sentia ímpetos de derrubar a pirâmide cuidadosamente montada com os “mais vendidos”. – Que usurpação das palavras!, pensava. Nem o colorido das capas poderia oferecer-se, naquele momento, como um linimento. Resignado, contentava-se em conseguir discernir certas palavras, como “caixa”, “pacote”, “lançamentos”. Atordoado, pensava que só a música poderia fazê-lo voltar a concatenar seus pensamentos. Em vão, procurou por seus cantores favoritos, acessou terminais de busca para não ter que verbalizar nada, e nada foi o que encontrou. A música de fundo era irritante, dessas que se tornam grandes apelos comerciais em pouquíssimo tempo, seguindo-se de sofríveis versões em português. Vencido pelo cansaço, saiu, sem pacote, sem nada.
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