03/06/2005
Na boca do lixo eu passei para cortar caminho, como se não soubesse que o caminho mais curto é também o mais penoso. Na boca do lixo eu passei para ver se estava tudo igual: as prostitutas e os aviões, o comércio decadente e o movimento dos simples mortais que somos nós. Na boca do lixo eu vi, numa fração de segundos, muitas histórias de vida: um jovem estendido na calçada, com os braços por dentro da camiseta, a mulher que passava ao lado olhando para o nada, tentando preservar sua dignidade de transeunte, a moça rosa de rabo loiro, fumando e aguardando sua sorte na frente da sapataria, o burburinho na saída de um cursinho na hora do intervalo, o cheiro ensebado das lanchonetes, o trânsito silencioso e civilizado nas ruas estreitas. Na boca do lixo eu percebi um sorriso sem maquiagem, humanizado, heterogêneo, solidário, vindo de corações moídos e recompostos em rasgos de esperança. A boca do lixo é sincera, fala o que pensa, não esconde os sentimentos, joga verdades na nossa cara. A boca do lixo é banguela, como disse Caetano sobre o que disse Lèvi-Strauss sobre a Baía de Guanabara. E, acima de tudo, é uma boca sedutora.
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