17 de Outubro de 2004
Uma tese para escrever, uma estréia do Woody Allen pra assistir, e uma preguiça de domingo que não me deixou trocar de roupa até agora (são duas e meia da tarde). Sento na frente do computador e só penso em duas coisas: jogar paciência ou continuar a escrever um conto que me atrevi a começar ontem: “a banheira”. Bom, se ele não for pra frente (como todos), pelo menos estou salvando aqui a idéia, que, como um gracejo, apareceu quando eu conversava com minha mãe sobre a banheira de ferro que quero colocar no apartamento depois da reforma. Num misto de ironia fúnebre e grotesca de um filme B, com frases do tipo “Deus me livre!”, nos divertíamos na cozinha sobre a possibilidade de eu vir a adquirir uma banheira que já foi palco de assassinatos, afogamentos, traições... “podem até ter servido para dar banho em defunto...”, disse com a cara de riso macabro. Daí falamos que isso dava um conto, eu imaginando a banheira contando sua própria história até chegar, bela e formosa, toda reformadinha no meu futuro banheiro de pastilhas de vidro e lustre de cristal, ra ra ra! O começo poderia ser assim...
Caros amigos, se não fossem vocês eu não poderia mais estar aqui vivo, nessa minha existência de banheira. Já perdi o contato com meus parentes mais próximos há muitos anos, desde que, após a forja, nossa série foi distribuída nos estabelecimentos comerciais de Curitiba (idos de 1920). O que eu sei é que a maioria já não existe, e também sei notícias de primos distantes que viraram coxo de cavalo, outros que estão em quintais fazendo o nobre papel de vasos (de plantas ornamentais a horta de leguminosas). Outros eu sei, já não tiveram a mesma sorte, e foram abandonados após terem servido dignamente ao ramo da construção civil (no preparo de cimento). Também ouvi falar de gente da nossa espécie que foi esquecida em porões, encarquilhados e desenganados quanto ao seu destino mais óbvio: definhar lentamente nos pátios de um ferro velho. Mas meus queridos: agradeço-lhes a cada minuto por me resgatarem à vida, eu que sempre fui útil e que não via mais sentido em permanecer enclausurado numa sala escura e poeirenta de antiquário. Meu currículo, vasto e pitoresco, está agora coroado com essa nova chance que me deram. Estou me sentindo chique e galhardo, depois do banho de louça e da restauração de meu pé quebrado. O ambiente da casa em que estou é muito bom e familiar. Só estranho um pouco a altura. Devo confessar. Lembrando de quando jovem, nos áureos tempos de mansão na Mateus Leme, acostumado que estava com aquele movimento todo, sinto um pouco de tédio. Minha proprietária é gente muito boa, não estou reclamando, mas tem muito pouco o hábito de me usar. Gente nova, que cresceu em apartamento, que sempre teve água quente vinda da torneira, sabe como é. Foram essas modernidades que fizeram de nós, banheiras, objetos tão desprezados nesses últimos tempos. Minha história, por tanto adormecida, me passa pela memória como um filme...
Um comentário:
Oi, Lili,
Isso é que é uma banheirinha falastrona!
Beijão
Fernando Cals
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